São Paulo lidera em mortes violentas não explicadas, mesmo com a menor taxa oficial de homicídios do país, segundo o Atlas da Violência.

O estado de São Paulo, conhecido por apresentar a menor taxa de homicídios do Brasil nos últimos anos, conforme o Atlas da Violência, revela um cenário preocupante quando se consideram os chamados “homicídios ocultos”. Essas são mortes violentas classificadas como de causa indeterminada, que, segundo pesquisadores, provavelmente foram assassinatos não registrados oficialmente.

O levantamento, divulgado pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) em parceria com o Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP), aponta que o número de homicídios em São Paulo quase dobra ao incluir essas mortes subnotificadas. Essa discrepância levanta sérias questões sobre a real dimensão da violência no estado e a confiabilidade dos dados utilizados para formular políticas públicas.

A metodologia inovadora utilizada para identificar esses “homicídios ocultos” emprega aprendizado de máquina para analisar características das vítimas e das circunstâncias das mortes, buscando desvendar a verdadeira natureza de óbitos classificados como de causa indeterminada. As descobertas do estudo foram divulgadas nesta terça-feira (26/05).

O que são “homicídios ocultos” e como são identificados?

Os “homicídios ocultos” referem-se a mortes violentas que são registradas no Sistema de Informações sobre Mortalidade do Ministério da Saúde como “causa indeterminada”. Isso ocorre, muitas vezes, pela falta de informações suficientes para que legistas determinem se o óbito foi resultado de acidente, suicídio ou homicídio, como explica Daniel Cerqueira, técnico de planejamento e pesquisa do Ipea.

“Muitas vezes a declaração de óbito vem com o campo da causa em branco porque o médico legista não tem mais informações para saber se uma pessoa que está com perfuração de arma de fogo, por exemplo, se aquilo foi um acidente, um suicídio ou homicídio”, afirma Cerqueira.

Para contornar essa lacuna, pesquisadores do Ipea desenvolveram um modelo estatístico que utiliza aprendizado de máquina. Essa técnica analisa dados como idade, sexo, estado civil, escolaridade, município de residência da vítima, além do instrumento utilizado, dia, mês, ano e local do incidente, para calcular a probabilidade de que um óbito classificado como de causa indeterminada tenha sido, na verdade, um assassinato.

São Paulo lidera em mortes não explicadas, apesar da baixa taxa oficial

Em 2024, o Brasil registrou um total de 17.207 Mortes Violentas por Causa Indeterminada (MVCI), o que representa 40% dos homicídios formalmente registrados no mesmo período. São Paulo, apesar de sua taxa oficial de homicídios de 6,6 por 100 mil habitantes, significativamente menor que a média nacional de 20,1, lidera o ranking de “homicídios ocultos”.

Entre 2023 e 2024, os homicídios ocultos no país praticamente dobraram, passando de 3.755 para 7.083. Desse total, São Paulo concentra 2.824 casos, quase 40%. O estado tem sido campeão nesse quesito desde o início da série histórica do Atlas da Violência em 2014, com um crescimento contínuo, inclusive uma alta de 24% apenas entre 2023 e 2024.

Ao considerar os homicídios ocultos, a taxa de assassinatos em São Paulo sobe para 12,8 por 100 mil habitantes, o que faria o estado cair da primeira para a terceira posição no ranking nacional, atrás de Santa Catarina (8,8) e do Distrito Federal (10,9).

Reação oficial e divergências na interpretação dos dados

A Secretaria da Segurança Pública de São Paulo (SSP) declarou que seus dados são “de natureza jurídica e criminológica”, diferentemente dos dados sanitários do Ministério da Saúde utilizados no levantamento. A pasta argumenta que os critérios e finalidades são distintos, tornando a comparação inadequada.

No entanto, Daniel Cerqueira discorda, apontando que as tendências entre os dados de homicídios estimados pelo Ipea (que incluem os ocultos) e os dados oficiais de mortes violentas intencionais do Ministério da Saúde e do Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP) são semelhantes ao longo da última década.

“É importante qualificar as informações. Sem aferir o grau de qualidade, muitas vezes a gente pode estar com o termômetro quebrado e fazer um diagnóstico errado”, alerta Cerqueira, questionando a possibilidade de aplicar remédios eficazes com diagnósticos imprecisos.

O pesquisador expressa surpresa com o alto número de mortes por causas indeterminadas em São Paulo, um estado rico e com recursos técnicos. “Eu acho um mistério porque há tantos anos São Paulo tem esse número grande de mortes por causas indeterminadas. É o estado mais rico da federação. Não é questão de falta de técnicos habilitados”, comenta.

Queda na violência letal e o “ponto cego” estatístico

A taxa de homicídios calculada pelo Atlas da Violência em sua edição de 2026 atingiu o menor patamar da série histórica, com 42.590 homicídios em 2024, uma taxa de 20,1 por 100 mil habitantes, 7,4% menor que em 2023. Contudo, os autores do estudo alertam para um “aumento crítico na subnotificação dos homicídios”, evidenciado pelo crescimento de 88,6% nas Mortes Violentas por Causa Indeterminada de um ano para outro.

Essa subnotificação, segundo o estudo, dificulta a identificação da dinâmica criminal e compromete o planejamento e a avaliação de políticas públicas de segurança. São Paulo não é o único estado afetado, com crescimento expressivo de MVCI também no Rio Grande do Norte (117,9%), Rio de Janeiro (85,7%) e Alagoas (88%).

Os autores recomendam cautela na análise da redução da violência, pois a piora na qualidade da informação pode estar criando um “ponto cego” estatístico, especialmente em estados com fragilidades institucionais na investigação e no registro de dados de mortalidade. Estados como Amapá, Bahia e Pernambuco continuam liderando as taxas de homicídios, muitas vezes em contextos de disputa territorial entre facções criminosas, como a rota do Solimões na Amazônia.

Em resposta, a SSP afirmou ter implantado o programa SPVida, que visa o monitoramento e análise minuciosa de casos com vítimas fatais para evitar classificações errôneas de homicídios como mortes suspeitas, garantindo transparência nos dados. A SSP também atribui a queda progressiva nos crimes contra a vida ao investimento em políticas públicas e melhorias nos sistemas de segurança.

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