Peru em suspense: Roberto Sánchez assume liderança apertada contra Keiko Fujimori em eleição presidencial acirrada

O Peru vive momentos de grande expectativa enquanto a contagem dos votos do segundo turno da eleição presidencial avança. A disputa voto a voto entre o esquerdista Roberto Sánchez e a direitista Keiko Fujimori tem mantido o país em suspense, com os resultados finais ainda imprevisíveis.

Com mais de 27 milhões de cidadãos aptos a votar, a escolha do nono presidente em uma década se desenha como uma das mais acirradas da história recente do país. A polarização ideológica entre os candidatos reflete as profundas divisões na sociedade peruana.

A apuração, que segue nesta segunda-feira (8/6), já mostra uma virada na liderança. Com 95% das urnas apuradas, o Escritório Nacional de Processos Eleitorais do Peru indica Roberto Sánchez com 50,113% dos votos, superando Keiko Fujimori, que detinha 49,887%. Esses dados, conforme divulgado pela BBC News Mundo, apontam para uma vantagem mínima, com o resultado ainda pendente dos votos do exterior e de áreas rurais.

Disputa voto a voto com resultado incerto

A contagem dos votos nas áreas rurais tem favorecido Roberto Sánchez, candidato da coligação Juntos por el Perú. No entanto, o jornal El País ressalta que o resultado ainda não é definitivo e que a disputa acirrada pode se estender aos votos enviados do exterior, onde mais de um milhão de peruanos estão aptos a votar. A contagem desses votos ainda não começou.

Uma contagem rápida divulgada pela empresa Ipsos e pela ONG Transparência na noite de domingo já indicava um empate técnico, com Sánchez obtendo 50,3% e Fujimori 49,7%. Essa apuração preliminar, baseada em uma amostra significativa, é historicamente um indicador confiável no Peru.

As pesquisas de boca de urna também previram um cenário de grande equilíbrio. A pesquisa do Ipsos deu a Fujimori 50,7% contra 49,3% de Sánchez, com margem de erro de 3%. Já o instituto Datum apontou 50,53% para a candidata conservadora e 49,47% para seu rival.

Candidatos pedem serenidade e respeito à democracia

Após a divulgação dos resultados preliminares, Roberto Sánchez discursou para seus apoiadores, declarando o fim de um “pacto mafioso” e pedindo “serenidade e respeito pela democracia”. Ele enfatizou que a apuração rápida reafirma a “vontade do povo” e exortou o respeito aos resultados.

Por outro lado, Keiko Fujimori afirmou à imprensa que “neste momento, não há vencedor nesta disputa”. Ela destacou a necessidade de contar “cada voto” e pediu para que os apoiadores “não percam a esperança”, aguardando os resultados finais com “muita fé e respeito”. Fujimori também solicitou à comunidade internacional que acompanhe a contagem.

Histórico e polarização marcam a eleição

Esta é a quarta vez que Keiko Fujimori, filha do ex-presidente Alberto Fujimori, concorre à presidência, tendo sido derrotada em eleições anteriores. Roberto Sánchez se apresenta como herdeiro político do ex-presidente Pedro Castillo, que foi preso após tentar dissolver o Congresso.

A disputa é influenciada pelo voto urbano e rural, com Fujimori buscando apoio em Lima e Sánchez forte nas áreas rurais e no sul do país. O cientista político Alonso Cárdenas aponta a rejeição histórica a ambos os candidatos como um fator determinante, ligada ao autoritarismo e corrupção da era Alberto Fujimori no caso de Keiko, e à desorganização e corrupção da gestão Castillo no caso de Sánchez.

Insegurança e economia em pauta

A insegurança e a criminalidade foram temas centrais na campanha. Fujimori propôs políticas de linha dura contra o crime, incluindo o uso do exército e controle de presídios, o que gera temores de um retorno a políticas autoritárias. Sua abordagem de livre mercado e atração de investimentos contrasta com as propostas de Sánchez.

Sánchez defende a revisão de contratos de mineração, aumento de impostos corporativos e maior controle estatal sobre recursos naturais, ideias que geraram instabilidade nos mercados. No entanto, ele moderou seu discurso, prometendo respeitar a autonomia do Banco Central e o marco legal para investimentos, buscando estabilidade macroeconômica.

Ambos os candidatos enfrentam investigações. Sánchez por supostos fundos de campanha não declarados, e Fujimori por um caso de lavagem de dinheiro ligado ao escândalo da Odebrecht, que foi arquivado pelo Tribunal Constitucional.

Governança e instabilidade política

A governabilidade do Peru, marcada por um Congresso fragmentado e frequentes confrontos entre poderes, é uma grande incógnita. Nenhum partido detém maioria, e a capacidade do presidente de construir alianças em um cenário volátil é crucial.

Muitos peruanos expressam exaustão com a instabilidade política. Jovens manifestantes têm criticado a ineficácia do Estado no combate ao crime, corrupção e desigualdade. A geração Z, que representa cerca de um quarto do eleitorado, demonstra ceticismo quanto à capacidade dos candidatos de promoverem mudanças reais.

A Junta Nacional Eleitoral (JNE) informou que os resultados finais deste segundo turno só deverão ser conhecidos em meados de julho, devido à implementação de um novo processo de recontagem obrigatória para seções eleitorais com resultados contestados ou irregularidades.

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