Eleições na Colômbia: O Legado da Divisão e as Propostas Opostas de De la Espriella e Cepeda no Segundo Turno
A Colômbia se encontra em um momento crucial, com o segundo turno das eleições presidenciais deste domingo (21/06) colocando frente a frente Abelardo de la Espriella e Iván Cepeda. A disputa acirrada, que se repete desde o primeiro turno, levanta o debate sobre quais modelos de país esses candidatos representam.
De um lado, o advogado Abelardo de la Espriella surge como um defensor de propostas conservadoras e linha dura, alinhado a líderes como Donald Trump e Javier Milei. Do outro, o senador e filósofo Iván Cepeda apresenta uma agenda de esquerda, com foco em reformas sociais e um discurso conciliador na segurança, seguindo a linha do atual presidente, Gustavo Petro.
Embora a polarização entre os candidatos pareça clara, especialistas consultados pela BBC News Mundo sugerem que a realidade colombiana é mais complexa do que uma simples divisão entre esquerda e direita. Conforme informação divulgada pela BBC News Mundo, uma tendência de divisão territorial se acentua desde 2016, após o plebiscito do acordo de paz com as Farc.
A Colômbia Dividida: Periferia pela Esquerda, Centro pela Direita
Yann Basset, cientista político da Universidade do Rosario, explica à BBC Mundo que as regiões periféricas do país tendem a votar pela esquerda, enquanto o centro opta pela direita, com as cidades apresentando dinâmicas próprias. Essa divisão territorial se alinha com áreas mais pobres e afetadas pela violência, onde a presença estatal é limitada.
Cepeda obteve seus melhores resultados no primeiro turno em muitas dessas áreas periféricas, onde o Pacto Histórico buscou a inclusão de comunidades afro-colombianas e indígenas. Basset aponta diferenças econômicas entre essas regiões, localizadas nos litorais, na Amazônia e na fronteira com a Venezuela, e as regiões centrais atravessadas pelos Andes.
“O centro vive de um sistema agroindustrial integrado às cidades, enquanto nas periferias predomina uma economia extrativista. Esses fatores enraizaram essa diferença territorial tão acentuada”, detalha o especialista. Nas grandes cidades, a divisão se manifesta por estratos de renda, com os mais baixos tendendo a votar em Cepeda e os de renda média e alta preferindo De la Espriella.
Propostas Econômicas em Contraste
No campo econômico, as propostas de De la Espriella incluem a redução do tamanho do Estado e a diminuição de impostos para empresas. Em contrapartida, Cepeda defende um papel maior do Estado, a transformação do campo como motor nacional e o apoio a pequenas empresas.
O historiador Felipe Arias Escobar vê uma herança histórica nessa divisão, com regiões andinas votando tradicionalmente em partidos conservadores e o litoral no Partido Liberal. Ele aponta que algumas bandeiras desses partidos históricos são hoje retomadas por outros movimentos.
“Há continuidades e fenômenos que transcendem a dicotomia de esquerda e direita. São demandas de setores e simpatias que em algum momento, por exemplo, eram atendidas pelo Partido Liberal, depois pelo ex-presidente Juan Manuel Santos e hoje por opções de esquerda como Cepeda e Petro”, analisa Escobar.
Novas Demandas e o Eco das Mobilizações Sociais
Escobar observa que, no lado oposto, De la Espriella representa uma versão colombiana das direitas populistas, atraindo setores que antes votavam no Partido Conservador e depois no ex-presidente Álvaro Uribe. Ele destaca que é difícil falar em eleitores “mecânicos”, mas sim em cidadanias diversas e voláteis.
Os ecos da explosão social de 2021, que protestou contra o modelo econômico e a política tradicional, ainda reverberam. “Há um grupo com demandas identitárias e novas cidadanias que se visibilizaram na explosão e que agora entraram em choque com movimentos de reação”, diz Escobar.
Analistas vinculam o movimento de 2021 a parte do voto em Petro e Cepeda, enquanto o fenômeno De la Espriella seria uma recomposição das direitas para frear o impulso dessa nova cidadania representada pela esquerda. A campanha de De la Espriella foca em valores como família e autoridade, enquanto a esquerda se unificou em torno de Petro, impulsionando Cepeda.
Identidades Menos Estáticas e o Apelo do Marketing Político
Juan Fernando Giraldo, cientista político especializado em opinião pública, nota que as identidades políticas hoje são menos estáticas do que nas décadas de 1940 e 1950. “Você encontra colombianos que, por exemplo, hoje têm um apetite por figuras de autoridade e valores que podem se assemelhar a princípios católicos e também uma Colômbia que recalibra essas prioridades de forma diferente”, comenta.
Ele aponta que, apesar da maioria se identificar como católica, nem todos os eleitores possuem posições intensas sobre a autoridade do Estado, o que indica que o país não é tão polarizado quanto parece na cédula. Giraldo sugere que a análise da polarização muitas vezes é feita pela elite, e nas cidades e no meio rural, as preocupações são mais sensíveis e voláteis.
O marketing de De la Espriella soube explorar mensagens claras sobre família, autoridade e combate ao crime, mostrando-se eficaz. Da mesma forma, a unificação da esquerda em torno de Petro contribuiu para a alta intenção de voto em Cepeda. “Muita gente se entusiasma com a forma como Petro fala e com o que ele diz, mas isso não quer dizer necessariamente que essas pessoas se considerem de esquerda ou defendam direitos das minorias”, conclui Giraldo.