Maior chacina do DF: Réu Carlomam detalha plano e alega disparo acidental em vítima
O quarto dia do julgamento da maior chacina do Distrito Federal, que chocou o país ao vitimar 10 pessoas de uma mesma família, incluindo três crianças, foi marcado pelo interrogatório de Carlomam dos Santos Nogueira, um dos cinco réus acusados pelo crime.
Em sua fala perante o júri, Carlomam apresentou uma versão surpreendente para a morte de uma das vítimas, Marcos Antônio Lopes de Oliveira, alegando ter efetuado o disparo “sem querer”. Ele descreveu um momento de embate com a vítima, que já estaria rendida, culminando no que chamou de um disparo acidental.
A colaboração com a justiça, conforme relatado por Carlomam, começou com uma conversa com Fabrício Canhedo, outro réu, sobre uma oportunidade de ganhar dinheiro. A proposta evoluiu para uma quantia de R$ 500 mil, sem que Carlomam soubesse inicialmente a natureza do plano. Segundo ele, Fabrício também foi convidado e alegou que o plano não era dele. Posteriormente, Carlomam foi apresentado a Gideon Menezes, apontado como o mentor do grupo e que estaria envolvido no plano com Fabrício. A informação foi divulgada pelo g1.
Depoimentos anteriores revelam contradições entre os réus
O interrogatório de Carlomam dos Santos Nogueira ocorreu após os depoimentos dos outros três réus ouvidos no terceiro dia de julgamento. Gideon Batista de Menezes afirmou ser uma vítima coagida, alegando ter sido amarrado e forçado a participar dos crimes. Horácio Carlos Ferreira Barbosa exerceu seu direito constitucional ao silêncio, enquanto sua defesa argumentou que, embora os crimes sejam inegáveis, o Ministério Público não teria comprovado sua autoria.
Por outro lado, Fabrício Canhedo confessou sua participação nos crimes, detalhando que agiu motivado pela necessidade de dinheiro para a cirurgia do filho. Em seu depoimento, ele chorou e pediu perdão aos familiares das vítimas, além de implicar os demais réus nas mesmas condutas. A diversidade de relatos evidencia a complexidade do caso e as diferentes estratégias de defesa apresentadas pelos acusados.
A cronologia de um plano cruel e torpe
A investigação do Ministério Público do DF classificou o crime como um “plano cruel e torpe”, com atuação coordenada, funções definidas e uso de extrema violência ao longo de semanas. Segundo a denúncia, a associação criminosa para cometer os crimes teria se formado em outubro de 2022.
A sequência de eventos detalhada na denúncia aponta que, em 27 de dezembro de 2022, Gideon, Horácio e Carlomam, acompanhados de um adolescente, renderam Marcos Antônio Lopes de Oliveira, sua esposa Renata Juliene Belchior, e a filha do casal, Gabriela. Na ocasião, cerca de R$ 49 mil foram roubados e as vítimas foram levadas para um cativeiro em Planaltina, onde Marcos foi morto e esquartejado por Gideon e Horácio.
A partir de 28 de dezembro, Renata e Gabriela permaneceram em cativeiro, com Fabrício Canhedo assumindo a vigilância. Os criminosos passaram a usar os celulares das vítimas para enviar mensagens e se passar por elas, a fim de evitar suspeitas e planejar novas ações. Entre 2 e 4 de janeiro de 2023, Cláudia Regina Marques de Oliveira e sua filha, Ana Beatriz Marques de Oliveira, foram rendidas em casa, roubadas e levadas para o mesmo cativeiro. Ali, tiveram senhas bancárias exigidas.
Em 12 de janeiro de 2023, Thiago Gabriel Belchior, filho de Marcos e Renata, foi atraído à chácara e sequestrado com a ajuda de Carlos Henrique Alves da Silva, sendo levado ao cativeiro. Usando o celular de Thiago, os criminosos contataram Elizamar, esposa de Thiago, e a convenceram a ir até a chácara com os três filhos do casal: Rafael, Rafaela e Gabriel. Ao chegarem, todos foram rendidos e levados para uma rodovia em Cristalina (GO).
Segundo o MP do DF, Elizamar e as três crianças foram mortas por estrangulamento por Gideon e Horácio, com Carlomam acompanhando a ação. O carro com os corpos foi incendiado. Em seguida, Renata e Gabriela Belchior foram levadas para Unaí (MG), onde também foram mortas por estrangulamento por Gideon e Horácio, com Carlomam presente, e seus corpos queimados dentro de um veículo. Ao saber desses assassinatos, Fabrício se desentendeu com o trio e abandonou o plano.
Em 15 de janeiro, sob ordens de Gideon, Horácio e Carlomam levaram Cláudia, Ana Beatriz e Thiago a uma cisterna em Planaltina, onde, segundo a denúncia, foram assassinados a golpes de faca e seus corpos jogados no local e cobertos com terra e cal. No dia seguinte, 16 de janeiro, parte do grupo tentou destruir provas, queimando objetos do cativeiro e alterando o local para dificultar a perícia.
Crimes e penas previstas
A denúncia do Ministério Público abrange diversos crimes, incluindo homicídios qualificados, com penas que variam de 12 a 30 anos de prisão. Além disso, os acusados respondem por extorsão, roubo, sequestro, constrangimento ilegal, fraude processual, corrupção de menores e ocultação e destruição de cadáver.
O julgamento continua com o interrogatório do quinto e último réu, Carlos Henrique Alves da Silva, e a expectativa é que as próximas sessões apresentem mais detalhes sobre a participação de cada um dos envolvidos na brutal chacina que abalou o Distrito Federal.