Péter Magyar, o ex-aliado de Orbán que pode mudar os rumos da Hungria após 16 anos de poder.

A Hungria está em efervescência política. A frase “Agora ou nunca”, dita por Péter Magyar aos húngaros, ecoa em sua incansável campanha pelo país, rumo às eleições que podem definir o futuro da nação. As pesquisas de opinião indicam que ele, um ex-membro do partido governista Fidesz, representa a maior ameaça ao regime de Viktor Orbán desde 2010.

Com 45 anos, Magyar tem percorrido todos os 106 distritos eleitorais húngaros, realizando múltiplos comícios diários. Sua mensagem, inicialmente um chamado à mobilização inspirado em um poeta revolucionário do século 19, foi abreviada para “Agora”, refletindo a urgência de sua campanha.

Magyar construiu uma forte base de apoio, alcançando até mesmo as áreas tradicionalmente dominadas pelo Fidesz. Sua campanha de 300 km da capital até a fronteira com a Romênia buscou “reunir” a nação e atrair eleitores do partido de Orbán. Conforme divulgado pela BBC, ele promete combater a corrupção, melhorar a economia e busca o apoio da desfavorecida comunidade roma, além de destravar fundos congelados da União Europeia.

A Ascensão de um Crítico Interno

Até fevereiro de 2024, Magyar era parte integrante do Fidesz, partido ao qual se uniu na universidade e no qual sua então esposa, Judit Varga, era uma estrela em ascensão. No entanto, um escândalo envolvendo um perdão presidencial a um homem ligado a abusos sexuais em um orfanato estatal abalou o governo. A presidente Katalin Novák renunciou, assim como Judit Varga, que como ministra da Justiça, assinou o perdão.

Este episódio marcou o fim da carreira de Varga no Fidesz e abriu os olhos de Magyar. Ele expressou seu descontentamento em uma publicação no Facebook: “Não quero fazer parte de um sistema em que as pessoas que realmente detêm o poder se escondem atrás das saias das mulheres”. Sua decisão de deixar o partido foi comunicada em uma entrevista viral no YouTube, assistida por um milhão de pessoas.

Da Família do Fidesz ao Confronto com Orbán

Magyar, filho de advogados e com um ex-presidente húngaro como padrinho, sempre teve interesse pela política. Formado em Direito e com experiência como diplomata em Bruxelas e diretor de empresas estatais, ele sentiu o descontentamento crescer gradualmente. “O Fidesz que vemos hoje é muito, muito diferente daquele no qual entrei em 2002”, declarou à BBC.

A entrevista no YouTube não foi planejada, mas se tornou um divisor de águas. Magyar reconheceu o risco de ir contra o governo, especialmente considerando a segurança de seus três filhos. A virada definitiva ocorreu em 15 de março de 2024, quando, durante um feriado nacional, enquanto Orbán discursava contra a UE, Magyar reunia cerca de 10 mil pessoas, focando em corrupção e má gestão econômica.

Um Novo Partido e Acusações de Corrupção

Naquele dia, Magyar anunciou a formação de um novo partido, o Tisza. Ele reforçou suas acusações de corrupção divulgando uma gravação de conversa com sua ex-esposa, que o acusou de abuso, alegação que ele nega. Gergely Gulyás, ministro de Orbán, o acusou de trair sua família e o país como agente de Bruxelas.

Apesar das acusações e ataques, Magyar avançou. Seu novo partido, Tisza, obteve 29,6% dos votos e sete cadeiras no Parlamento Europeu, ficando atrás do Fidesz, mas com forte presença. Pesquisas de outono de 2024 já colocavam o Tisza à frente do Fidesz. Magyar criticou os laços de Orbán com a Rússia, questionando por que o primeiro-ministro não repete mais o lema de 1989 de tirar os russos da Hungria.

A Tática de Magyar contra a Mídia e o Sistema

Magyar não se alinha com a oposição liberal, a qual critica por ter contribuído para o fortalecimento de Orbán no passado. Ele também enfrentou a mídia pró-Orbán, alegando ter sido alvo de uma campanha de difamação “no estilo russo” com uma suposta gravação de sexo. Magyar admitiu ter tido sexo consensual com uma ex-namorada, mas negou o uso de drogas e alegou ter caído em uma armadilha dos serviços secretos, realizando testes de drogas que deram negativo.

Ele acredita que seu conhecimento interno do Fidesz lhe confere uma vantagem. “Eu os conheço, conheço seus truques. Sei que eles estão muito assustados”, afirmou, confiante em sua capacidade de desmantelar o sistema de poder de Orbán e trazer uma nova era para a Hungria.

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