Enem 2025 registra recorde negativo: apenas 10 redações alcançam nota máxima, menor índice em uma década
Um total de 10 participantes, entre mais de 4,8 milhões de inscritos, alcançou a nota máxima na redação do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) 2025. O número representa o menor índice dos últimos dez anos, superando até mesmo o resultado de 2024, quando 12 estudantes atingiram a pontuação máxima.
A prova de redação deste ano abordou o tema “Perspectivas acerca do envelhecimento na sociedade brasileira”, um assunto complexo que demandou dos candidatos capacidade de análise crítica e argumentação aprofundada sobre questões sociais e históricas.
Os dados foram extraídos dos microdados divulgados pelo Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep) nesta segunda-feira (22). Conforme informação divulgada pelo g1, o número de notas mil na redação do Enem 2025 é o menor desde 2014, quando 250 alunos conquistaram a pontuação máxima.
Origens Históricas e Descaso Estatal: Raízes do Envelhecimento Desvalorizado
A dificuldade em promover um futuro digno para a terceira idade no Brasil remonta a um processo histórico marcado pela exclusão socioespacial. Desde o período colonial, práticas como a Lei dos Sexagenários visavam à marginalização de escravizados com mais de 60 anos, em vez de promover sua inserção respeitosa na sociedade.
Essa atitude segregacionista, segundo análise de um dos textos que obtiveram nota máxima, naturaliza o silenciamento dos idosos e perpetua a ideia de inferioridade desse grupo. A manutenção de raízes históricas degradantes impede o reconhecimento da velhice como uma fase importante e inevitável da vida.
Negligência Estatal e a “Sociologia das Ausências” no Envelhecimento
A negligência estatal é um fator crucial na perpetuação da aversão social ao envelhecimento populacional. A falta de campanhas nacionais concretas e eficazes para estimular a qualidade de vida da terceira idade agrava o cenário. O pesquisador Ruy Braga destaca que a ausência de um modelo assistencial inclusivo permite o não reconhecimento dos idosos como integrantes ativos da sociedade.
Políticas públicas ineficientes contribuem para a precarização do bem-estar dos idosos, qualificando essa faixa etária como pouco importante para a edificação da nação. Essa visão é reforçada pela “sociologia das ausências”, descrita por Boaventura de Sousa Santos, que aponta a invisibilidade dos saberes e modos de vida de determinados grupos.
Necropolítica e a Omissão Midiática: Impactos na Qualidade de Vida dos Idosos
A ausência de políticas públicas de saúde para a população idosa é um dos fatores que contribuem para a estigmatização. O conceito de “necropolítica”, de Achille Mbembe, explica como o Estado pode decidir quem vive e quem morre. A omissão estatal, evidenciada pela falta de verbas para atividades em Centros de Referência Especializados de Assistência Social (CREAS) e campanhas preventivas em Unidades Básicas de Saúde (UBS), afeta diretamente a qualidade de vida dos idosos.
Adicionalmente, a inexistência de abordagens midiáticas sobre a importância do envelhecimento contribui para o problema. Conforme Noam Chomsky, limitar o espectro de opinião e criticidade mantém as pessoas passivas. A mídia, ao não abordar a inclusão profissional e a representatividade dos idosos em espaços importantes, contribui para a sua exclusão social.
Propostas para um Envelhecimento Digno e Ativo
Diante deste cenário, são necessárias medidas para promover perspectivas positivas ao envelhecimento. O Poder Executivo, por meio do Ministério dos Direitos Humanos e da Cidadania, pode fomentar o respeito à terceira idade. A criação de projetos como o “Projeto Nacional Vida Feliz”, com debates ministrados por idosos, pode desmistificar preconceitos e protagonizar a atuação dessa parcela da sociedade.
Outras iniciativas sugerem a capacitação e autonomia para idosos, como o “projeto envelhecer” do Cin-UFPE, que ensina a conviver no ambiente digital. O Ministério da Saúde, em parceria com CREAS, pode desenvolver atividades físicas e campanhas de prevenção. Veículos midiáticos também devem retratar a importância do envelhecimento em figuras de poder, combatendo o etarismo.
A colaboração entre Estado e setor privado é fundamental para criar políticas públicas mais assertivas, com foco em saúde e atividade física, garantindo um envelhecimento ativo e digno para todos os brasileiros. A superação da “sociologia das ausências” e da necropolítica é um passo crucial para transformar as perspectivas sobre o envelhecimento no país.