O crime organizado em SP: o PCC em xeque e a ascensão do Comando Vermelho em território paulista
Por décadas, o cenário do crime organizado em São Paulo foi dominado pela força hegemônica do Primeiro Comando da Capital (PCC). Contudo, um movimento sutil, mas significativo, vem ganhando força: a expansão territorial do Comando Vermelho (CV), facção carioca que agora faz incursões em solo paulista, alterando o equilíbrio de poder.
Essa nova dinâmica, evidenciada por confrontos e disputas por território, como o ocorrido em Ubatuba, no litoral norte de São Paulo, aponta para uma transformação no modus operandi e nas prioridades das grandes facções criminosas no Brasil.
Investigadores e pesquisadores consultados pela BBC News Brasil indicam que essa mudança não é um acaso, mas sim o resultado de uma combinação de fatores, incluindo a própria estratégia de expansão do CV e a reconfiguração de interesses do PCC, que tem se voltado para atividades de maior retorno financeiro.
A expansão do Comando Vermelho em São Paulo
A presença do Comando Vermelho em São Paulo tem se concentrado em duas áreas estratégicas: próximo à divisa com o Rio de Janeiro, como em Ubatuba e outras cidades do Vale do Paraíba e Litoral Norte, e na região de Piracicaba. Essa expansão é explicada, em parte, pela estratégia nacional do CV de diversificar suas bases de atuação.
Em Ubatuba, por exemplo, homicídios dolosos dobraram em 2025 em comparação com o ano anterior, com investigações apontando para disputas entre o PCC e o CV como motivação. Essa disputa, embora comum em outros estados, é incomum em São Paulo, onde o PCC reinava absoluto.
Uma fonte ligada às investigações na região do Vale do Paraíba e Litoral Norte relata que, em alguns pontos, o PCC chegou a abandonar pontos de venda de drogas, as chamadas “biqueiras”, abrindo espaço para a atuação do CV, que tem cooptado novos membros.
O PCC e a priorização de negócios mais lucrativos
O enriquecimento e a diversificação dos negócios do PCC são apontados como um fator central para entender a atual conjuntura. O grupo, que surgiu há 30 anos em um presídio de Taubaté, expandiu suas operações para o tráfico internacional de drogas e para segmentos da economia legal, como combustíveis e o setor financeiro.
Essa diversificação, especialmente a entrada no tráfico internacional, tem levado o PCC a priorizar menos o varejo de drogas interno. O promotor Lincoln Gakiya, do Ministério Público de São Paulo, explica que o tráfico interno “dá mais trabalho e menos dinheiro”, com maior risco de prisão e custos para manter as famílias dos presos. Já o tráfico internacional oferece lucratividade “infinitamente maior”.
Essa mudança de foco do PCC, segundo especialistas, abre espaço para a concorrência, permitindo que facções como o Comando Vermelho ganhem terreno em áreas antes dominadas pela facção paulista.
A nova geração e a menor aderência à ideologia do PCC
Um terceiro fator relevante é a entrada de uma nova geração de jovens no mundo do crime. Muitos desses jovens não se identificam com a ideologia, as regras e os códigos de conduta do PCC, tornando-se mais suscetíveis a formar alianças com rivais da facção paulista.
O promotor Lincoln Gakiya observa que “o PCC tem perdido um pouco a força entre os integrantes jovens” no que diz respeito à disciplina e hierarquia. Esses jovens estariam mais motivados pelo “ganho de dinheiro” do que pela “luta contra o sistema” ou pela “opressão no sistema prisional”, que motivaram a criação do PCC.
Essa desconexão se reflete no sistema prisional, com um aumento de agressões e homicídios em dias de visita, algo proibido pelo código do PCC. A “desorganização interna do PCC”, possivelmente reflexo de rachas na cúpula ou do isolamento de lideranças, também contribui para esse cenário.
A disputa em Piracicaba e a violência do “Bonde do Magrelo”
Na região de Piracicaba, a disputa pelo território tem se mostrado mais acirrada e violenta. Um grupo local conhecido como “Bonde do Magrelo” se associou ao Comando Vermelho. Anderson Ricardo de Menezes, o “Magrelo”, apontado como um de seus líderes, é descrito como alguém que “não admite desaforos” e cuja consequência para quem o contraria “é a morte!”.
O “Bonde do Magrelo”, com origem em Rio Claro, atua no tráfico de cocaína e tem chamado atenção desde 2021 por seu modo de agir violento, com uso de fuzis em vias públicas e emprego de rastreadores para eliminar rivais. Embora Menezes esteja preso, o grupo continua atuando, com prisões recentes ligadas à organização e ao Comando Vermelho.
A operação “Red Flag”, nomeada em referência ao emoji usado nas redes sociais para o CV, realizada em maio, resultou na prisão de suspeitos ligados à organização em Rio Claro e Paulínia, demonstrando a continuidade da atuação conjunta.
Um novo capítulo para o crime organizado em São Paulo
Apesar dos confrontos e da expansão do Comando Vermelho, especialistas como o promotor Lincoln Gakiya e o analista criminal Guaracy Mingardi não veem, por ora, o PCC perdendo sua hegemonia em São Paulo ou a presença do CV como uma ameaça imediata de guerra sangrenta. Consideram a expansão do CV ainda “embrionária” e “incipiente”.
No entanto, a dinâmica em São Paulo pode estar em um ponto de inflexão. O período de relativa paz entre facções em São Paulo, que antecedeu a ascensão do crime organizado, coincidiu com recordes nos índices de homicídios. Uma eventual disputa entre grupos fortes no estado poderia reproduzir dinâmicas semelhantes às vistas em outras partes do país, com consequências negativas.
O cenário atual, com a disputa entre PCC e CV, o enriquecimento do PCC e a emergência de novas gerações de criminosos, sugere que o crime organizado em São Paulo pode estar entrando em um novo e complexo capítulo de sua história.