Amor, paciência e pioneirismo: a luta de um casal gay pelo direito ao casamento no interior de São Paulo

No Dia Internacional do Orgulho LGBTQIA+, celebrado em 28 de junho, a história de Vanderlei Araújo, o Lêlo, e Marcos André Bezerra, moradores de Matão, no interior de São Paulo, ressalta a importância da luta por direitos e o poder da persistência.

O casal, que se conheceu em 1994 e decidiu morar junto em 1995, enfrentou quase duas décadas de espera para ter sua união legalmente reconhecida. Durante 19 anos, Lêlo e Marcos construíram uma vida lado a lado, superando tabus e preconceitos em uma época em que o casamento civil homoafetivo ainda era proibido no Brasil.

“Eu sabia que não ia ser fácil. Aceitação da família, da sociedade, né? Explicar o porquê que aqueles dois jovens, na época muito bonitos, estavam morando juntos”, relembrou Lêlo sobre os desafios iniciais da relação nos anos 90. A conquista do direito de oficializar o amor no cartório se tornou o desfecho de uma longa jornada de resistência, conforme informações divulgadas no contexto do Dia do Orgulho LGBTQIA+.

A virada histórica e a burocracia pioneira

A decisão do Conselho Nacional de Justiça (CNJ) em 2013, que determinou que todos os cartórios do país realizassem o casamento civil homoafetivo, foi o estopim para que Lêlo e Marcos buscassem a legalização de sua união. No entanto, por ser o primeiro casal a enfrentar esse processo na cidade, a burocracia se apresentou como um novo obstáculo.

“A gente ficou sabendo pela TV que na época o governo tinha liberado o casamento entre pessoas do mesmo sexo, iguais. Fomos no cartório civil para fazer, fez o registro. Aí quando mandou o proclame do diário oficial, a gente ficou sabendo que ia demorar um pouco”, contou Marcos. A falta de familiaridade das autoridades locais com a nova lei gerou um processo que precisou ser enviado para a segunda instância em Campinas, resultando em uma espera de aproximadamente nove meses pela certidão.

Abrindo portas para a comunidade

Apesar dos percalços, Lêlo e Marcos se tornaram verdadeiros desbravadores. “Fomos o primeiro casal aqui na nossa cidade a ter o casamento no cartório. E abrir portas para os nossos companheiros, e depois muitos amigos nossos que também fizeram o matrimônio no cartório”, afirmou Lêlo com orgulho.

A oficialização da união, após 19 anos de convivência, trouxe um profundo sentimento de dignidade e reconhecimento para o casal. “Muita felicidade, viu? A gente tem o nosso registro, tudo certinho, certidão. Hoje ajuda a gente bastante, porque a gente já viajou para fora, a gente é considerado uma família, que eu acho isso muito interessante”, disse Marcos.

Um legado de amor e reconhecimento

Hoje, 32 anos após o primeiro encontro, Lêlo e Marcos vivem plenamente a paternidade com sua filha, Maju, de 9 anos. A certidão de casamento representa para eles não apenas um documento, mas a consolidação de uma família construída com base no amor e no respeito.

A conquista pioneira do casal em Matão reflete o avanço dos direitos LGBTQIA+ no estado de São Paulo. Dados recentes indicam um aumento significativo nos casamentos homoafetivos, com 2.209 registros entre janeiro e junho deste ano, um crescimento de quase 24% em comparação ao mesmo período de 2025, quando foram contabilizados 1.786 uniões. Esse aumento demonstra o impacto positivo da luta de casais como Lêlo e Marcos, que pavimentaram o caminho para que outros pudessem viver seu amor com dignidade e reconhecimento.

Emoção no altar do cartório

A emoção de oficializar a união também marcou Kenedy Bernardes Louzada e Lorran Louzada de Oliveira Bernardes, outro casal que recentemente celebrou seu casamento no cartório. Lorran compartilhou a intensidade do momento: “Tremi, errei o nome, foi bem assim. Aquele nervoso de felicidade que você não está acreditando, mas tivemos que pedir outra folha, porque não dava, a caneta não parava, a mão ficava bem trêmula”.

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