MP de SP aponta que fintechs da Faria Lima continuaram ocultando dinheiro do crime organizado em SP; movimentações chegam a R$ 26 bilhões
Uma nova fase da Operação Carbono Oculto, batizada de ‘Operação Fluxo Oculto’, revela que fintechs localizadas na Avenida Brigadeiro Faria Lima, coração financeiro de São Paulo, seguiram atuando na ocultação de dinheiro proveniente do crime organizado. O esquema persistiu mesmo após operações policiais anteriores.
Segundo o Ministério Público de São Paulo, o grupo criminoso não apenas continuou suas atividades após a operação de agosto do ano passado, como também as expandiu. Houve um aumento no desvio de nafta e a criação de novas empresas de fachada para dissimular os valores ilícitos.
Relatórios de inteligência financeira detectaram movimentações atípicas e suspeitas que somam quase R$ 26 bilhões. As fintechs e plataformas de pagamento foram reativadas como “dutos financeiros” para o grupo criminoso, que se reestruturou rapidamente e manteve seu padrão de atuação, mantendo conexões com o Primeiro Comando da Capital (PCC).
Acesso a ‘Contas Bolsão’ Revela o Mecanismo de Lavagem
Um ponto crucial da investigação desta quinta-feira (28) foi o acesso às contas gráficas vinculadas às chamadas ‘contas-bolsão’, mantidas pelas fintechs em bancos tradicionais. Anteriormente, o dinheiro movimentado nas contas das fintechs não detalhava a origem dos recursos em relação aos seus clientes.
Essas ‘contas-bolsão’ criaram um ponto cego no sistema de combate à lavagem de dinheiro, oferecendo múltiplas brechas para blindagem patrimonial e lavagem de capitais. Com o acesso às contas gráficas, os promotores obtiveram o registro interno das transações, incluindo origem, destino, remetente e beneficiário.
Essa informação foi possível porque os recursos dos usuários transitam por contas mantidas em nome da própria fintech junto a bancos tradicionais, permitindo o rastreamento detalhado das operações.
Operação Abrange Quatro Estados e Visa Desarticular Esquema Bilionário
O Grupo de Atuação e Combate ao Crime Organizado (Gaeco) do Ministério Público de São Paulo, em conjunto com a Receita Federal, deflagrou a nova fase da Operação Carbono Oculto. A operação apura a infiltração do PCC no setor de combustíveis.
Foram cumpridos 55 mandados de busca e apreensão em São Paulo, Paraná, Rio de Janeiro e Minas Gerais. O foco é demonstrar que, mesmo após a operação de agosto de 2025, a organização continuou lavando dinheiro, adulterando combustíveis e sonegando impostos.
O grupo passou a concentrar as movimentações de dezenas de postos em uma única conta para despistar as investigações. Em um exemplo, as operações de 56 postos eram realizadas em uma única conta bancária. Além disso, houve migração de recursos entre diversas fintechs e o uso de novas empresas para substituir antigas já expostas.
Lideranças e Fintechs Envolvidas no Esquema
A investigação aponta Mohamad Hussein Mourad (o “Primo”) e Roberto Augusto Leme da Silva (o “Beto Louco”) como líderes do esquema. Ambos estão foragidos desde agosto do ano passado. Eles tentaram um acordo de delação premiada com o MP de São Paulo, mas a proposta foi rejeitada por omitirem informações cruciais sobre lavagem de dinheiro, conexões com o PCC e corrupção policial.
Fintechs como BK Bank, Ceopag, Sispay, Vpay, Yaw e Smart Solutions Group estão sob investigação. A Smart Solutions Group movimentou mais de R$ 1,2 bilhão, sendo cerca de R$ 500 milhões destinados à GGX Global, holding de postos do grupo criminoso. A Ceopag registrou movimentações atípicas de R$ 359 milhões em créditos e R$ 513 milhões em débitos.
No total consolidado, relatórios de inteligência financeira apontaram movimentações atípicas na ordem de R$ 3,86 bilhões. A investigação também revelou que a Yaw se interligou ao esquema via Shelby Holdings, ligada a investigados por conexões com o PCC, e a Sispay apresentou vínculos com alvos de operações anteriores contra a mesma facção.
‘Máfia do Nafta’ e Adulteração de Combustíveis Detalhadas
Duas outras frentes da operação focam na ‘máfia do nafta’ e na adulteração de combustíveis. O grupo utilizava empresas de solventes petroquímicos importados, com tributação inferior, para vendê-los ilegalmente como gasolina automotiva.
Produtoras e importadoras emitiam milhares de notas fiscais falsas para empresas de fachada registradas em nome de “laranjas”. Na prática, o produto desviava de rota e era misturado à Gasolina Tipo A, sendo revendido aos consumidores. Houve desvio comprovado de mais de 135 milhões de litros de nafta em pouco mais de dois anos.
Apenas a Petrodansk emitiu mais de 10.076 notas fiscais falsas, totalizando R$ 1,49 bilhão. O prejuízo com a sonegação fiscal é estimado em mais de R$ 200 milhões. O grupo usava fundos de investimento (FIDC-NP) para liquidar as operações fraudulentas e mascarar os beneficiários do lucro, criando uma camada final de lavagem de dinheiro.