A Saga de Bokejon: Do Campo Nazista ao Coração de uma Família em Jersey
Por mais de oito décadas, o destino de um prisioneiro de guerra soviético, conhecido apenas como Tom, permaneceu um enigma. Ele escapou das garras nazistas nas Ilhas do Canal da Mancha e viveu escondido com uma família local durante o restante da Segunda Guerra Mundial. Sua história, agora revelada, é um testemunho de coragem, bondade e da força dos laços humanos.
Tom, um dos cerca de 2 mil prisioneiros e trabalhadores forçados soviéticos levados para a ilha de Jersey para construir fortificações nazistas, desapareceu após a guerra, prometendo manter contato, mas nunca mais enviou notícias. A busca por sua identidade e destino levou jornalistas da BBC até o extremo leste do Uzbequistão, onde encontraram seus descendentes.
A descoberta reconecta duas famílias separadas por um conflito global e pelo tempo, honrando a memória de um homem que arriscou tudo pela sobrevivência e a de uma família que arriscou tudo para salvá-lo. A história de Bokejon Akramov, como ele foi identificado, é uma lição sobre a humanidade em tempos sombrios.
A Fuga e o Refúgio em Tempos de Guerra
Exausto e faminto, Bokejon bateu à porta dos fazendeiros John e Phyllis Le Breton em Jersey. Sabendo dos imensos riscos, eles o acolheram, salvando sua vida. As condições nos campos de trabalho forçado eram brutais, como Bokejon descreveu em seu diário. Ele relatou dias de trabalho árduo quebrando rochas, com uma alimentação escassa e punições severas por qualquer motivo, inclusive por doença.
“Nós quebravamos rochas na pedreira, das seis horas da manhã às seis da noite”, escreveu Tom posteriormente. “Nossa comida consistia de sopa ao meio-dia e uma porção muito magra de pão e um pouco de manteiga na hora do chá. Não tínhamos café da manhã.” Ele também detalhou os castigos físicos recebidos, mesmo quando doentes.
Bokejon viveu escondido com os Le Breton por mais de dois anos. O perigo era constante; outra moradora de Jersey, Louisa Gould, foi morta em um campo de concentração por abrigar um fugitivo soviético, após ser delatada por vizinhos.
Um Vínculo Inquebrável com a Família Le Breton
A confiança entre Bokejon e os Le Breton era tão grande que ele participava ativamente da vida familiar, lendo para os filhos e brincando com eles. Dulcie, filha do casal e hoje com 90 anos, guarda memórias afetuosas de seu “querido tio Tom”, cuja foto ainda mantém em sua cabeceira.
“Mas ainda estou intrigada com o que aconteceu com ele depois da guerra”, expressou Dulcie, que agora vê seu mistério resolvido. A conexão entre Tom e a família Le Breton transcendeu a necessidade de sobrevivência, tornando-se um laço de afeto genuíno durante os anos de ocupação.
O Retorno à União Soviética e o Silêncio Pós-Guerra
Após a libertação das Ilhas do Canal em maio de 1945, Bokejon e outros soviéticos sobreviventes foram enviados de volta para a URSS. Três cartas chegaram a Jersey durante sua viagem de retorno, mas depois veio o silêncio. O retorno de ex-prisioneiros de guerra à União Soviética era frequentemente marcado por interrogatórios e suspeitas de deslealdade ou colaboração com o inimigo pelas autoridades do NKVD.
Muitos enfrentavam barreiras para conseguir trabalho e sucesso, vivendo sob constante suspeita. Outros eram condenados a campos de trabalhos forçados. Mesmo após a morte de Josef Stalin, o estigma associado aos antigos prisioneiros de guerra persistiu por muitos anos, dificultando a reintegração social.
A Jornada da BBC para Desvendar a Identidade de “Tom”
As cartas de Bokejon para os Le Breton eram assinadas como “Bokijon Akram”, mas seu nome completo e origem exata eram desconhecidos. Uma equipe da BBC News Russa iniciou uma longa pesquisa, vasculhando arquivos soviéticos e de guerra. A dificuldade residia na grafia do nome em russo, diferente da forma como ele o escreveu em inglês, e na ausência de informações precisas sobre sua proveniência.
A BBC analisou dezenas de registros e centenas de variações de grafia, refinando a busca com base nos detalhes de seu diário. A pesquisa apontou para Bokejon Akramov, nascido em 1910 e recrutado em Namangan, no atual Uzbequistão, que teria lutado ou sido capturado na Ucrânia.
Conexão Familiar e Reconhecimento Póstumo
A BBC News Russa encontrou um registro indicando que, décadas após seu retorno, Bokejon Akramov recebeu a Ordem da Guerra Patriótica, incluindo um endereço residencial. Uma equipe da BBC News Uzbequistão viajou a Namangan e encontrou Shamsiddin Ahunbayev, neto de Akramov, que reconheceu as fotos de seu avô.
Ahunbayev se emocionou ao ouvir a história. A família de Akramov revelou que ele raramente falava sobre a guerra, mas sempre recusava empregos qualificados ou sensíveis, trabalhando por muitos anos como jardineiro. A captura na guerra parece ter deixado marcas profundas em sua vida profissional. Bokejon Akramov faleceu em 1996, tendo, segundo a família, uma vida longa e feliz.
Um Elo de Gratidão Entre Continentes
A BBC facilitou uma videochamada entre a família de Akramov no Uzbequistão e Dulcie Le Breton em Jersey. “Nosso avô só conseguiu sobreviver à guerra e nos dar a vida graças a vocês”, disse Shamsiddin Ahunbayev, agradecendo a coragem e bondade da família Le Breton. “Estamos muito felizes por tê-la encontrado. Convidamos você a vir ao Uzbequistão.”
Dulcie respondeu que seus pais agiram “simplesmente porque era o certo a fazer”. Ela também ressaltou que muitos em Jersey ajudaram soldados soviéticos, e que gostaria que essas histórias fossem conhecidas e lembradas. Em reconhecimento à sua bravura e compaixão, as autoridades uzbeques concederam postumamente a John e Phyllis Le Breton a Ordem da Amizade, uma das mais altas distinções nacionais.