Turista brasileiro relata desespero em La Paz, Bolívia, com protestos que o impedem de retornar ao país e dinheiro acabando
Gabriel Medeiros, um designer de 26 anos, encontra-se em uma situação de angústia em La Paz, capital da Bolívia. O que era para ser uma visita de três dias durante sua viagem de mochilão pela América do Sul, transformou-se em 18 dias de incerteza e preocupação financeira. Os protestos que assolam o país impedem sua saída, e o dinheiro que trouxe para a viagem começa a se esgotar.
A situação se agrava com o aumento diário dos preços das passagens aéreas, tornando a única rota de saída viável, o aeroporto de El Alto, inacessível para o seu orçamento. Sem previsão de retorno e com recursos limitados, Gabriel busca trabalhar remotamente enquanto espera o fim dos bloqueios, mas a apreensão com o dinheiro que está acabando é palpável.
O designer, que planejava seguir para o Peru para trabalho voluntário, relata a dificuldade em conseguir sair do país e alerta outros brasileiros que chegam sem ter conhecimento da situação. O Ministério das Relações Exteriores do Brasil confirmou as dificuldades de deslocamento e orienta evitar viagens não essenciais para as regiões afetadas, como La Paz e Oruro.
Protestos paralisam a Bolívia e afetam a vida de turistas
Desde o início de maio, a Bolívia vive uma onda de protestos contra o governo do presidente Rodrigo Paz. As manifestações, que envolvem diversos setores da sociedade com demandas que vão de mudanças na política agrária à renúncia do presidente, têm resultado em bloqueios generalizados de estradas em várias regiões do país. Em La Paz, a única saída tem sido pelo aeroporto de El Alto, que também tem sofrido interdições.
Gabriel Medeiros vivenciou os bloqueios de perto. Ao chegar à Bolívia por Santa Cruz da La Sierra, ele já presenciou os atos. Próximo a Cochabamba, o ônibus em que estava ficou retido por nove horas em um bloqueio. A partir daí, os protestos se intensificaram por todo o país, com confrontos entre manifestantes e forças de segurança, especialmente em La Paz.
Escassez e aumento de preços marcam o cotidiano em La Paz
Os protestos não afetam apenas os turistas, mas também a população boliviana, que sofre com a escassez de alimentos, combustível e medicamentos. Em La Paz, Gabriel relata que os restaurantes têm aumentado gradualmente os preços e oferecem poucas opções de prato, com falta de itens básicos como frango, um alimento consumido em grande quantidade na região.
Apesar das dificuldades, o designer percebe nas ruas um apoio aos atos. La Paz, como sede do governo e importante centro político, abriga uma forte presença de povos indígenas e é um epicentro ligado à base de apoio do ex-presidente Evo Morales, cujos apoiadores estão entre os manifestantes. A analista política Luciana Jáuregui, citada pela BBC Mundo, descreve a mobilização como tendo uma “postura abertamente desestabilizadora”, com exigências que vão além de demandas específicas, incluindo a renúncia do presidente.
Outros brasileiros relatam dificuldades e medo de não conseguir voltar
A enfermeira Fabiane Gerotti Mendes, de 36 anos, também relatou suas dificuldades após passar dois dias presa em bloqueios nas rodovias bolivianas. Viajando de carro, ela teve problemas para abastecer o veículo devido à escassez de combustível e decidiu encurtar sua viagem por medo de não conseguir retornar ao Brasil. Fabiane descreveu o medo sentido ao ser abordada por manifestantes em um bloqueio, com pessoas vindo em cima de seu carro.
Após ficar retida por dois dias em Aiquile, onde enfrentou falta de combustível, Fabiane conseguiu finalmente atravessar o bloqueio na madrugada de sexta-feira, após uma longa fila de caminhões. Ela descreve a emoção de finalmente conseguir sair dali, chorando ao ver os carros atravessando. Apesar de não ter presenciado confrontos violentos, ela aconselha que as pessoas evitem viajar para a Bolívia no momento, devido ao aumento dos bloqueios e protestos.
Motivações dos protestos e a instabilidade política na Bolívia
Os protestos na Bolívia ocorrem em meio a uma das piores crises econômicas do país desde a década de 1980, marcada por escassez de combustível e moeda estrangeira, além de inflação descontrolada. O governo de Rodrigo Paz, que assumiu o poder há seis meses, enfrenta insatisfação de diversos setores. O ex-presidente Evo Morales nega envolvimento nos protestos, mas o governo o acusa de estar por trás das manifestações.
As demandas incluem questões como a reforma agrária, que gerou interpretações de que promoveria a venda de terras para grandes proprietários, levando o governo a revogar a iniciativa. Professores também lideraram protestos por aumentos salariais devido à alta inflação, mas um acordo foi alcançado. No entanto, as manifestações continuaram e se espalharam.
A eliminação de subsídios ao combustível pelo governo Paz elevou os preços, levando a questionamentos sobre a qualidade do produto vendido. Análises técnicas indicaram que as gasolinas testadas não atendiam aos padrões de qualidade. Além disso, o presidente anunciou uma “reforma parcial” da Constituição para facilitar o investimento, o que críticos veem como uma tentativa de privatizar a gestão de recursos naturais, algo negado pelo governo.