Capela São Benedito de Santos Pretos: Fé, Tradição e Resistência Afro-Brasileira em Lavras (MG)
Em meio às ruas de Lavras, no Sul de Minas Gerais, um local se destaca por sua profunda importância cultural e religiosa: a Capela São Benedito de Santos Pretos. Mais que um templo, o espaço é um centro vibrante de fé, tradições afro-brasileiras e acolhimento comunitário, firmemente enraizado no quilombo urbano São Benedito.
A capela se tornou um ponto de referência, especialmente em celebrações ligadas ao 13 de maio, data que marca a Lei Áurea e também a devoção popular à escrava Anastácia. Essa figura histórica é reverenciada como um poderoso símbolo de resistência e proteção por muitos frequentadores, que encontram na capela um refúgio e um espaço de fortalecimento de sua identidade.
A história da Capela São Benedito de Santos Pretos é fruto da união de lideranças religiosas, culturais e moradores do quilombo. O espaço integra a Associação Sociocultural Castelo de São Jorge, criada para salvaguardar manifestações culturais, religiosas e saberes populares afro-brasileiros. Essa iniciativa, que conta com nomes como o mestre de capoeira Emerson Ferreira e Pai Thallyson Fideles Grego, tem sido fundamental para a preservação da memória e das tradições da comunidade, conforme informações divulgadas na pauta.
Um Espaço de Fé e Resistência com a Escrava Anastácia como Símbolo
A imagem da escrava Anastácia ocupa um lugar de honra na capela. Embora não seja canonizada pela Igreja Católica, ela é intensamente venerada na religiosidade popular e em religiões de matriz africana, como a Umbanda Nagô. Para os fiéis, Anastácia representa a força da resistência diante das adversidades históricas, a liberdade e a proteção, especialmente para as comunidades tradicionais.
“A importância dela está justamente nessa resistência. Hoje ela representa liberdade e proteção para muitas pessoas”, afirma um dos responsáveis pelo espaço, destacando o papel da figura como um farol de esperança. A devoção a Anastácia é vista como um pilar para enfrentar as lutas diárias.
Acolhimento e Fortalecimento Comunitário em Lavras
A Capela São Benedito de Santos Pretos transcende o âmbito religioso, funcionando como um importante centro de acolhimento e fortalecimento comunitário. Um dos objetivos primordiais do espaço é oferecer suporte a pessoas em situação de vulnerabilidade, promovendo um senso de apoio coletivo dentro da comunidade do quilombo urbano.
Lucineia da Silva Balbino, frequentadora assídua, relata como a capela se tornou sua “segunda casa”. Ela encontrou no local um refúgio e força em momentos difíceis, como após a perda de seu filho. “A capela para mim é minha segunda casa, onde eu me sinto acolhida, onde eu me sinto muito bem, onde faço meus pedidos. Foi onde eu fui recebida após a morte do meu filho, onde busco forças”, compartilhou.
Preservando Saberes e Tradições Afro-Brasileiras
Manter as tradições vivas é uma missão diária, marcada pela superação do preconceito ainda existente contra as religiões de matriz africana. “Manter a tradição é uma luta diária, porque ainda temos muito preconceito com a cultura afrodescendente. Mas, com fé em Deus, temos conseguido”, relata Lucineia, que faz questão de transmitir esses valores para as novas gerações, ensinando seu neto de cinco anos sobre a riqueza dessa cultura.
A capela não se limita a celebrações religiosas; ela é um palco para diversas atividades culturais. Oficinas de artesanato, encontros culturais, culinária típica e rodas de conversa sobre memória e ancestralidade são promovidos, garantindo que os saberes dos mais velhos sejam preservados e transmitidos. “A gente preserva os saberes dos mais velhos e tenta manter essa tradição viva todos os dias”, explica Pai Tales.
Um Legado Vivo para as Futuras Gerações
A comunidade mantém vivas as tradições dos reinados, manifestações culturais afro-brasileiras e práticas populares transmitidas entre gerações. Mesmo em meio a reformas, o espaço permanece aberto, impulsionado pela Associação Sociocultural Castelo de São Jorge, para atividades religiosas e culturais. A Capela São Benedito de Santos Pretos é, portanto, mais do que um templo, é um guardião da memória, um promotor da valorização das tradições populares e um pilar de fortalecimento comunitário no quilombo urbano São Benedito.
“Aqui a gente não preserva só uma capela. A gente preserva a história dos nossos antepassados e mantém viva uma herança que passa de geração em geração”, conclui Pai Tales de Ogum, ressaltando o profundo significado deste espaço para a identidade e o futuro da comunidade.