O futuro do chocolate brasileiro está prestes a mudar, com novas regras que prometem mais qualidade e transparência para o consumidor.

O Senado Federal aprovou um projeto de lei que pode revolucionar o mercado de chocolates no Brasil. Após alterações na Câmara dos Deputados, a proposta, que agora aguarda sanção presidencial, redefine o que pode ser chamado de chocolate, exigindo um percentual maior de cacau e detalhando a composição dos produtos.

Essa mudança atende a uma demanda antiga dos consumidores, que sentem que muitos chocolates vendidos no país são, na verdade, uma mistura de gordura e açúcar com pouco cacau. Especialistas apontam que a baixa qualidade do cacau utilizado e as estratégias da indústria para reduzir custos ao longo das décadas contribuíram para essa percepção.

Com a nova legislação, a expectativa é que os consumidores brasileiros possam desfrutar de produtos mais fiéis ao chocolate de verdade. Acompanhe os detalhes dessa transformação e aprenda a identificar um bom chocolate, conforme informações da BBC News Brasil.

O “Chocolate Piorou”: Entenda as Razões por Trás da Perda de Qualidade

Especialistas ouvidos pela BBC News Brasil confirmam que a percepção de que o chocolate brasileiro piorou é real. A engenheira de alimentos Luciana Monteiro, fundadora da Ara Cacao, explica que essa queda na qualidade é resultado de décadas de mudanças nos processos de produção e nos insumos utilizados pela indústria, visando a redução de custos.

Um marco importante nessa história foi a crise da praga vassoura-de-bruxa, que devastou as lavouras de cacau na Bahia há quarenta anos. A produção brasileira encolheu drasticamente, levando o país de segundo para sexto maior produtor mundial. Essa escassez de matéria-prima, aliada a uma nova regulamentação da Anvisa em 2005, permitiu a redução do percentual mínimo de sólidos de cacau para 25%.

A norma atual, segundo Monteiro, permite que o mínimo de 25% de sólidos de cacau seja composto por pó de cacau, manteiga de cacau e massa de cacau. O pó de cacau, por ser um redutor de custo, não oferece o mesmo sabor e performance da massa ou da manteiga, mas é incluído na legislação. Além disso, há uma margem significativa para o uso de outras gorduras vegetais na formulação, sem que o produto deixe de ser chamado de chocolate.

Novas Regras: O Que Muda na Prática para o Consumidor

O projeto de lei aprovado pelo Congresso Nacional estabelece novas exigências. O percentual de cacau deverá aparecer na frente das embalagens, aumentando a transparência. Os percentuais mínimos de cacau também foram redefinidos: 35% de sólidos totais para chocolates em geral e 25% para chocolates ao leite, aproximando o Brasil dos padrões internacionais, como os da União Europeia (35% e 30%, respectivamente).

A nova legislação também detalha o que são considerados “sólidos de cacau”, estipulando que pelo menos 18% devem ser de manteiga de cacau e 14% de componentes isentos de gordura, com um limite de 5% para outras gorduras vegetais. Essas mudanças visam garantir que o produto final tenha uma maior proporção de ingredientes provenientes do cacau.

A substituição de ingredientes como a manteiga de cacau por óleos vegetais, como o óleo de palma e até mesmo o inferior óleo de palmiste, tem sido uma prática comum para reduzir custos. O mesmo ocorre com o leite, onde ingredientes como permeado de soro de leite em pó e soro de leite em pó são frequentemente encontrados.

Como Identificar um Bom Chocolate e Evitar Enganos

Diante desse cenário, identificar um bom chocolate se torna essencial. Zélia Frangioni, autora do blog Chocólatras Online, sugere que a leitura atenta do rótulo é fundamental. Os ingredientes são listados em ordem decrescente de quantidade, portanto, o cacau deve ser um dos principais. O açúcar não deve aparecer como primeiro ingrediente, e chocolates de qualidade não precisam de aromatizantes, pois o sabor provém do cacau em si.

Frangioni também destaca o movimento “bean to bar” (do grão à barra), que valoriza toda a cadeia produtiva do cacau, desde o plantio até a barra final, com foco em qualidade, sustentabilidade e remuneração justa para o produtor. Esses chocolates, embora mais caros, oferecem uma experiência sensorial superior e ingredientes mais puros.

A nutricionista Mariana Ribeiro, do Idec, reforça a importância de verificar os rótulos para evitar produtos ultraprocessados, que contêm muitos aditivos. Ela alerta que embalagens e nomes como “sabor chocolate” podem confundir o consumidor, mesmo que estejam em conformidade com a legislação atual. A comunicação visual e jogos de palavras podem induzir ao engano.

O Que Diz a Indústria e os Próximos Passos

A Pandurata Alimentos, dona da Bauducco, afirmou que a mudança do Choco Biscuit para “sabor chocolate” buscou “equilibrar qualidade e acessibilidade”, comunicando a alteração nas embalagens. A empresa mencionou a pressão inflacionária nos custos do cacau como um fator que impacta a garantia de acesso ao portfólio.

A Associação Brasileira da Indústria de Chocolates, Cacau, Amendoim, Balas e Derivados (Abicab) declarou que a indústria oferece produtos com diferentes percentuais de cacau, atendendo à preferência nacional pelo chocolate ao leite, mas também com opções de maior intensidade de cacau e menos açúcar.

A Abicab citou um certificado de 100% de aroma e sabor concedido ao chocolate brasileiro pela Organização Internacional do Cacau (ICCO), porém, a publicação do governo de 2022 indica que apenas 3% da produção nacional de cacau é do tipo fino.

Se sancionada, a nova lei dará às empresas cerca de 360 dias para se adaptarem, incluindo a reformulação de produtos e adequação de rótulos e publicidade. O descumprimento poderá acarretar sanções previstas no Código de Defesa do Consumidor e na legislação sanitária. Especialistas acreditam que a medida trará maior transparência e incentivará a indústria a aprimorar suas formulações.

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